quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Poema Não sei, só sei que é assim

Meus direitos foram retirados
enquanto eu dormia tranquilamente.
Meu salário diminuiu
no momento em que eu passava o café.
Ao pegar o ônibus,
ouvi rumores de que não teria mais 13º salário.
Depois do almoço,
li no jornal que não teria mais direito a aposentadoria.
Durante a tarde,
o encarregado nos disse que a jornada de trabalho passaria para 12h diárias.
Ao final do expediente
um colega me perguntou "o que fizemos para resistir a tudo isso?", respondi, "nada, ué, o que se há de fazer?".

sábado, 10 de dezembro de 2016

Poema pós-moderno

Temos que nos dar conta
que ainda que eu não receba uma lâmpada na cabeça
que a polícia não me considere um suspeito padrão
que ainda que eu não seja violentado no ônibus
assim como você, tenho calos em minhas mãos
Como você, baterei ponto ao chegar na firma
e apesar das nossas especificidades,
sentaremos lado a lado em nossos postos de trabalho,
sem qualquer lugar de fala
faremos os mesmos movimentos
nosso protagonismo apenas na produção
quando de repente diz o patrão, sorrindo cinicamente,
"vejam que belo, eu assim como vocês, sou cidadão!"
Quando nos dermos conta
que uns tomam lampadadas na rua e outros não
que uns tem o corpo violentado e outros não
que uns tem sua pigmentação criminalizada e outros não
mas que todos nós, os das mãos calejadas, temos o inimigo em comum
aquele mesmo que nos chamou de cidadão
apontaremos pra ele e diremos "revolução!"

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Uma profissão solitária

É as vezes a docência é uma profissão solitária...
Quando você é um dos poucos que não faz oração em suas aulas
quando falamos em Estado laico e somos vistos como quem estivesse com uma melancia no pescoço
Quando não comemoramos assassinatos de crianças com 10 anos de idade que aderiram ao crime, sem se dar conta que essa criança passou ou poderia ter passado em nossas mãos
Quando não deixo que meus alunos brinquem tranquilamente de polícia e ladrão
Quando não sou taxado de "do contra" por me colocar contra o que acho errado
Quando não faço filas de meninos e meninas
Quando nem ao menos os obrigo a andar em filas
Quando acho no mínimo esquisito ser professor de escola pública e colocar os filhos em escolas particulares

Se colocar contra um projeto de educação e se sentir como se falasse à um precipício que não possui nem o eco como resposta é solitário pra cacete, mesmo rodeado de 25 crianças em uma sala superlotada...

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Rebaixamento e fim da Portuguesa


O que vos fala frequenta o Canindé desde o momento que não sabia falar "Portuguesa". O que tomei de chuva nesse estádio, acompanhando aos jogos da Portuguesa, é muito maior do que tempo em que fiquei fazendo lições da escola, durante infância e adolescência.

Nesse estádio ouvi histórias de jogadores comoDenner, Enéas, Roberto Dinamite, e sobre tratores enterrados. Lá também pude ver Rodrigo Fabri, Leandro Amaral, Gléguer, Dida, Alex Alves, Capitão, Ricardo Oliveira e vários outros caras bãos jogando pelo meu time, bem como vi Romário, Edmundo, França e Cookie nos destroçarem.

Nesse estádio eu já perdi minha voz, já tomei babada do Sardinha e da rainha da Leões da Fabulosa e já fiquei com medo da cair no fosso, enquanto todo mundo pulava que nem maluco comemorando. Lá comi ums dos melhores bolinhos de bacalhau da minha vida, e caldo verde também!

No Canindé não tem cadeirinhas confortáveis pra bundinha almofadada não. O negócio é cimentão, nada gourmet. É pra quem gosta de futebol e não de selfie.

Só que venderam o meu time. E pra pagarem a dívida do meu time, venderão o meu estádio. Meu estádio será vendido porque não é arena e porque a área dele poderá render e muito aos especuladores imobiliários. Venderam meu time porque ele não é um dos "grandes" que proporcionam milhões e milhões para as multinacionais. Meu time começou a ser vendido a muitos anos atrás, e foi enterrado de vez pelo STJD. Não sabemos quem enterrou e comprou de vez, se foi Fluminense ou Flamengo, mas sabemos que a Portuguesada véia, chupim, sangue-sunga, foi quem vendeu.

Não me lembro de ter chorado tanto na minha vida como chorei na derrota para o Cruzeiro, na semifinal do brasileiro de 98, nem quando tomei um pé na bunda da garota que fui apaixonado. E apesar de já sentir nostalgia do alambrado do escanteio, lugar que eu assistia a todos os jogos com pai, irmãos e primo, não sinto desespero, como em 98. Sinto é apenas uma sensação de lamento, de ter perdido algum ente querido.

O futebol, tratado como mercadoria, como tudo no capitalismo, me tirou todo o tesão do futebol espetáculo. Tudo se compra, tudo se vende. Aproveitemos a várzea enquanto ela existe...

domingo, 11 de setembro de 2016

Meu nome não é Pelego!

Perder os finais de semana para estudar com os companheiros
acordar de madrugada para panfletar nas portas de fábricas
dormir tarde pensando em conspirações
o capital é grande, e forte
mas nós comunistas, não desistimos
Já teve golpe militar
já teve queda do muro
teve fim a primeira experiência socialista
e tivemos o partidos dos trabalhadores se virando contra os trabalhadores
mas mesmo os capitalistas sendo grandes, não nos resignamos
Tivemos companheiros mortos
tivemos e ainda temos companheiros que acreditam na ilusão da social-democracia
e diversos que acham que a luta não vale a pena
eles são grandes, mas ainda sim persistimos
Os capitalistas possuem os meios de produção
possuem o Estado, a democracia e a mídia
possuem até os que se dizem "Comunista do Brasil"
e são tão comunistas quanto moinhos de vento são gigantes
Eles são grandes, mas nós não arredamos pé
"Comunistas? Que anacrônicos" dizem alguns
mas não chamam de anacrônicos a sala superlotada
a cabeça do operário, pela viga amassada
a terceirizada semiescravizada
eles, os capitalistas, existem a tempos, e nós também
Mesmo que eu suma, outros virão
bem como houveram outros antes de mim
e a luta, até que sejamos vitoriosos, não cessará
eles são grandes, mais nóis é ruim!

sábado, 27 de agosto de 2016

Desabafo sobre o dia-dia de um professor.

    Sair na neblina de bicicleta, 6:30 da manhã e sentir suas mãos congelarem não é uma das experiências mais agradáveis que tenho, mas é o primeiro perrengue que passo quase todos os dias da semana para ir para a escola que dou aula no período da manhã. Chegando lá, dou aula para turmas com média de 20 alunos por sala. Se pensarmos que são 20 alunos de 4 e 5 anos, crianças que não sabem nem ao menos amarrar o tênis vemos que a tarefa não é lá muito simples. Salas mais fáceis e salas mais conturbadas todos professores tem, bem como as salas impossíveis. E são essas salas impossíveis, que todos temos, que nos trazem a crise e nos causam reflexões intensas.

   Em uma certa turma do infantil, tenho várias crianças com bastante energia! Não as culpo. Não é culpa delas as salas serem superlotadas e que elas sejam tratadas como linha de produção. Mas mesmo não as culpando nos deparamos com dilemas que estremecem nossas bases. Nessa sala possuem 5 crianças que demandam de MUITA energia do que vos fala pra que consiga promover alguma atividade. Uma dessas crianças é extremamente agressiva e sabendo um pouco do contexto que está inserida descobrimos que o pai batia na mãe, e que possuíam problemas com drogas. Outra dessas crianças não tem pai e ficou extremamente descontrolado tempos atrás no período de dia dos pais. Outra tem os pais se separando e por isso tem ficado mais agressiva. São crianças de 4,5 anos, que não tem culpa nenhuma de terem nascido onde nasceram bem como não tem culpa por serem tratadas como linha de produção. Mas como tocar a aula e colocar em prática toda a crença de uma educação transformado da realidade se nem ao menos consigo promover minhas aulas com essas crianças? O dilema que fica posto é: tirar os capetas da aula e ir deixando-os de castigo para tocar as atividades com as outras 15 ou manter todos na aula e não conseguir fazer nada com os 20? A universidade não me trouxe essas respostas.

    Depois de 4 aulas no período da manhã, pego a bicicleta e me mando pra escola que dou aula no período da tarde. Na quarta feira já é possível sentir a garganta pegando e a rouquidão que está por vir. O cansaço começa a dar um alô, mas o pensamento “tem gente que trabalha em carvoaria, você aguenta umas aulinhas” me faz engolir as inquietações.

     Diferentemente da escola da manhã que fica próxima à região central da cidade, a escola da tarde fica nas quebradas da cidade, e assim, o número de alunos pretos aumenta. Bem como o número de alunos pretos, aumenta também a precariedade do espaço físico em que dou aula. Na primeira metade da tarde dou aula para turmas com a mesma média de 20 alunos e tenho que escolher entre fritar no sol em uma área com grama ou dar aulas em um espaço de 4x10m. Com crianças de 3, 4, 5 anos em uma espaço bem pequeno, elas agem como átomos sob pressão, se agitam a tal ponto de darem cabeçadas umas contra as outras, várias vezes, fazendo forçadamente que as aulas de educação físicas virem aquela coisa bisonha em que todos fiquem sentados esperando a sua vez de fazer as atividades, fazendo com que cada uma faça 2 ou 3 vezes a atividade por aula.

    Hora da merenda. Hora de curtir os preciosos 20 minutos sem ouvir vozes de crianças e tomar a bendita droga que me mantém durante o dia, cafézinho. Começam os papos sobre avon, natura e logo começo a ouvir colega comemorando a morte de crianças de 10 anos morta pela polícia. “Um bandidinho a menos”, disse. Quem acha o congresso conservador, nunca pisou em uma sala dos professores. Prefiro ouvir o choro de uma sala inteira do que ouvir isso.

    Passado esse momento de esgoto no ouvido, volto as aulas. Com a intensidade do sol dando trégua, consigo fazer as atividades na bendita grama, dividindo o espaço com professoras que estão com suas salas nos brinquedos do parque. O medo de ter um dos meus alunos atingido por uma balanço é gigantesco, ainda mais depois de ser ameaçado pela diretora da escola de ser trocado por outro professor (sim, sou professor eventual e não tenho estabilidade alguma no cargo, bem como não recebo décimo terceiro, finais de semana e nem férias e recebo meu sálario só depois de 2 meses da data que trabalhei) caso alguma criança viesse a se machucar em minhas aulas. Deixo bem claro às crianças que não devemos ir pra parte que estão os brinquedos. Os mais velhos compreendem o pedido, mas na última aula, com um maternal 2, crianças de 3 anos, não fui lá muito bem sucedido, então vortemos à área de 4x10m e toca qualquer coisa pra passar o tempo. Depois de uma jornada de trabalho não tenho mais condições de chamar a atenção de criança por criança, então vortemos para a sala. Dando aquelas broncas clichês de respeitar o professor e bla, bla bla, me dou conta que estou puto é com a minha rotina, com minhas condições de trabalho, com a necessidade de trabalhar 30h por semana com crianças, com colegas de trabalho racistas e elitista e que elas não tem culpa disso, com a proposta de reajuste no meu salário de 1%. As crianças tem 3 anos e não tem culpa disso.

    Pego minha bicicleta volto pra casa pensando em começar a planejar minhas aulas deixando as crianças mais soltas, fazendo com que eu me desgaste menos. Começar a dar migué nas aulas? Talvez, com 30h por semana, sendo 29h o máximo permitido, ganhando muito menos que um professor efetivo no cargo não me parece loucura. Mas e a educação libertadora, a educação como instrumento de transformação social, como fica? "Ahh, mas tem gente que trabalha em carvoaria, você aguenta isso" tento pensar e de pronto respondo a mim mesmo "não preciso aguentar porra nenhuma, nem eu e nem os caras da carvoaria!".

    A noite vou pra faculdade, curso Pedagogia. Dentre intermináveis debates sobre o nada e assuntos pertinentes, nenhum professor responde onde fica a educação transformadora na prática diária dos professores, no chão de escola. Nem na Pedagogia nem na Educação Física, já cursada, ninguém me responde como coloco a educação transformadora na realidade totalmente caótica das escolas públicas, sem condições de trabalho alguma. Aliás, como diz um colega de trabalho e amigo, a maioria dos professores universitários que deitam e rolam sobre teorias pedagógicas não aguentam por poucos minutos uma sala com 15 crianças. Talvez se trabalhassem nas meninas dos olhos deles, Colégio Porto Seguro, Escola da Vila, Waldorf, etc, mas o mundo é diferente da ponte pra cá. Para eles o problema é sempre pedagógico, nunca é estrutural. Jogam pro individual o que é coletivo. Colocam como intra-sala o que é extra-sala, falam como temos que fazer, só que falar é beeem mais fácil que fazer.

    Termino o dia com uma cerveja e evocando Chapolin Colorado: Quem poderá nos defender?

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Privatização da universidade, o bonde que já passou.


   Todos que participam de debates sérios sobre educação frequentemente se deparam com termos como "sucateamento" e "precarização" tantos de escolas, quanto de licenciaturas. Nesses mesmos debates, provavelmente e inevitavelmente, esses debates cairão no temido assunto: privatizações

   Em âmbito estadual, vem se falando a tempos de propostas de cobrança de mensalidade nas três estaduais paulistas. Em âmbito federal, nas últimas semanas, esse debate vem esquentando, tendo o novo ministro da educação, Mendonça Filho (DEMO), se colocado a favor da cobrança de mensalidades em cursos de extensão e de pós-graduação. No início desse ano, o senador Marcelo Crivella (PRB) propôs um projeto de lei que cria mensalidade para estudantes das universidades federais. Alexandre Frota ainda não se manifestou sobre o tema.

   Essas movimentações acerva da privatização da educação não ocorrem por mera falta de informações dos que a propõe, não é ingenuidade. São reivindicações que fazem parte de um fenômeno maior. Essas reivindicações fazem parte das tentativas de implementação das políticas neoliberais. De maneira sucinta (mas nem por isso equivocada), o neoliberalismo são políticas que buscam entregar direitos básicos que são supostamente promovidos pelo estado às mãos de empresas privadas. Apegam-se em Adam Smith, na mão invisível do mercado que tudo regularia. Só não avisaram os trabalhadores onde essa mão invisível colocaria seus dedos. As políticas neoliberais ganham força na década de 70, com as ditaduras civil-militar brasileira e chilena, assim como é emblemático a ascensão de Margaret Thatcher como primeira-ministra do Reino Unido.

   Na universidade, o medo da privatização atinge aos três segmentos: funcionários, professores e alunos. O receio pela estabilidade no emprego, o anseio das cobranças pelos que podem vir a ser os patrões/grupos acionistas, a queda na qualidade do ensino, o medo das mensalidades que acarretarão na elitização escancarada do ensino superior.

   Dentro do cabo de guerra que é a "pretensão" de alguns em privatizar as universidades e nós, contrários à mercantilização do conhecimento e à elitização deste, muita coisa se passou e parece que o bonde da história também. Utilizei acima a palavra "pretensão" entre aspas, não por acaso. "Pretensão" de privatizar a universidade, pois talvez ela já tenha ocorrido.

   As faxineiras da universidade já são trabalhadoras terceirizadas. O xerox, terceirizado. Estudantes de Pedagogia almejando trabalhar em escolas privadas. Estudantes de Engenharia Ambiental saindo direto para instituições privadas. Estudantes de Educação Física pegando o diploma e indo direto para clínicas de personal e academias, todas privadas. O grande projeto dos estudantes de Física, produção de polímeros, altamente lucrativos para os empresários. Jonas Contiero, ex diretor do Instituto de Biociências da Unesp de Rio Claro, vetando da dissertação de mestrado de sua orientanda, conteúdos que são do interesse da empresa que financia suas pesquisas na universidade pública. Órgãos de fomento estatais -FAPESP- que investem apenas no que é rentável, ao que trará lucros.

   Chico Alencar (PSOL) diz que a cobrança de mensalidade nas pós-graduações e extensões representam o início da privatização do sistema público, e Edmilson Rodrigues (PSOL) afirmou que a proposta vai entregar patrimônio científico aos que se alimentam do lucro. Início da privatização? Vai entregar? Será que o bonde já passou e nós ainda estamos na fila pra comprar o bilhete?

   Caso a cobrança de mensalidades não se efetue, a privatização da universidade, a privatização do conhecimento público já ocorre à tempos! De fato, o estado-burguês e toda a sua prestação de serviços públicos servem essencialmente ao setor privado. O direito básico ao transporte, por exemplo. O que é ele se não o direito à levar os trabalhadores para seus postos de trabalho para que possam produzir e serem explorados tranquilamente? Dentro desse direito básico que é o transporte, o direito de ir e vir, quanto lucram as empresas com as licitações nebulosas que raramente possuem seus valores divulgados? Outro exemplo é a realização da Copa do Mundo e das Olimpíadas no Brasil e a estreita proximidade com as empreiteiras. O conceito que nós temos de público, seu funcionamento, está intrinsecamente ligado ao setor privado, sempre um em detrimento do outro. E é por isso que a discussão entre mais estado ou menos estado é estéril.
 
    Talvez a privatização da universidade já tenha acontecido e nós não percebemos. Talvez ela tenha acontecido em partes e venha a se intensificar. Tanto uma, quanto outra, não é do agrado dos que acreditam que o conhecimento socialmente produzido, com o dinheiro da classe trabalhadora, deva voltar à ela. Esse conhecimento deve estar disponível para a classe que tudo produz, desde as cadeiras até as paredes da universidade. Se o bonde da história passou, a classe trabalhadora tem total capacidade e conhecimento para construir um bonde mais rápido e poder mudar o seu curso. Como disse Che Guevara, "que a universidade se pinte de povo!".