quarta-feira, 5 de abril de 2017

A Portuguesa e a lava-jato.

Desde que me decepcionei com o futebol, quando a Portuguesa vendeu sua vaga na série A, só fui em jogos de outros times. Ver o Velo Clube tomando uma sapecada do Novo-horizontino em nada me abalava. Não torcia para nenhum deles mesmo.
Ver a briga entorno da Lava-Jato também não me abala. Não preciso tomar partido entre grupo da Kátia Abreu ou do Skaf. Tomar parte entre frações da burguesia se digladiando em disputa de maior poder político, de duas uma: ou está enganado ou está enganando.
Nas duas, fico só assistindo.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Meu pai e a reforma da previdência

Quando eu era pequeno e pedia algo para o meu pai, muitas vezes tinha como resposta um "depois a gente vê...". Quando eu voltava a reivindicar o reivindicado a resposta geralmente não mudava, "depois a gente vê". Com o tempo fui percebendo que essa era uma maneira eficiente de Seu Flor me engambelar.
A reforma da previdência vai passar, os trabalhadores não se aposentarão, perderão inúmeros benefícios, e assim como eu que só percebi que meu pai estava me enrolando depois de algum tempo, os trabalhadores só perceberão que serão velhos demais pra trabalhar e novos demais pra se aposentar depois de algum tempo.
Ou nos colocamos em luta, enquanto classe trabalhadora prestes a perder direitos, ou "depois a gente vê"...

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Professor não é herói

Sinto lhes dizer, professor não é herói. Trabalhar sem condições mínimas e com baixos salários não é exclusivo dos professores. Porque não consideramos heróis também os trabalhadores da construção civil que constroem essas mesmas escolas? Sem eles não existiriam casas, nem prédios. Porque não chamamos de heróis os metalúrgicos que fazem tudo que possamos imaginar, desde caminhões à fogões? Sem eles seríamos os Flinstones, com seus carros movido à calcanhar, ou cozinharíamos até hoje com lenha. Porque não chamamos de heróis as faxineiras, garis, que deixam os lugares que frequentamos dignos de serem habitados? E os trabalhadores da saúde, e da cozinha...? Parem de glorificar uma profissão, como se essa fosse mais importante que as outras.
E digo mais, a educação escolar não vai mudar o mundo. Pode parecer duro pra você que acredita nesse ente superior, nesse deus, que é a educação, mas quanto antes você se der conta disso melhor pra nós. Quanto antes você começar a se ver como um trabalhador - explorado que é, que bate-cartão ao iniciar o trabalho como todos os outros- melhor pra nós. Quanto antes começar a se organizar se colocando contra quem te precariza e explora, melhor pra nós. Pior para os patrões e seus governos.
Professor não é herói, professor é assalariado, explorado e fodido, como outros tantos

Imagine só...

Imagine só, se no quilombo de Palmares, os pretos resistentes pensassem em se unir aos senhores de escravos, darem as mãos, contra o mal maior que era a corrupção da coroa?
Imagine só os escravos revolucionários no Haiti deixando de enxotar os franceses pois "somos todos seres humanos"?
Imagine os bolcheviques se aliando, em pleno fervor revolucionário russo, à Kerenski, em nome da governabilidade e da coalizão?
E se os guerrilheiros de Sierra Maestra ignorassem os camponeses cubanos, julgando ser isso um ato de sectarismo e extremismo?
É, pois é...

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Poema Não sei, só sei que é assim

Meus direitos foram retirados
enquanto eu dormia tranquilamente.
Meu salário diminuiu
no momento em que eu passava o café.
Ao pegar o ônibus,
ouvi rumores de que não teria mais 13º salário.
Depois do almoço,
li no jornal que não teria mais direito a aposentadoria.
Durante a tarde,
o encarregado nos disse que a jornada de trabalho passaria para 12h diárias.
Ao final do expediente
um colega me perguntou "o que fizemos para resistir a tudo isso?", respondi, "nada, ué, o que se há de fazer?".

sábado, 10 de dezembro de 2016

Poema pós-moderno

Temos que nos dar conta
que ainda que eu não receba uma lâmpada na cabeça
que a polícia não me considere um suspeito padrão
que ainda que eu não seja violentado no ônibus
assim como você, tenho calos em minhas mãos
Como você, baterei ponto ao chegar na firma
e apesar das nossas especificidades,
sentaremos lado a lado em nossos postos de trabalho,
sem qualquer lugar de fala
faremos os mesmos movimentos
nosso protagonismo apenas na produção
quando de repente diz o patrão, sorrindo cinicamente,
"vejam que belo, eu assim como vocês, sou cidadão!"
Quando nos dermos conta
que uns tomam lampadadas na rua e outros não
que uns tem o corpo violentado e outros não
que uns tem sua pigmentação criminalizada e outros não
mas que todos nós, os das mãos calejadas, temos o inimigo em comum
aquele mesmo que nos chamou de cidadão
apontaremos pra ele e diremos "revolução!"

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Uma profissão solitária

É as vezes a docência é uma profissão solitária...
Quando você é um dos poucos que não faz oração em suas aulas
quando falamos em Estado laico e somos vistos como quem estivesse com uma melancia no pescoço
Quando não comemoramos assassinatos de crianças com 10 anos de idade que aderiram ao crime, sem se dar conta que essa criança passou ou poderia ter passado em nossas mãos
Quando não deixo que meus alunos brinquem tranquilamente de polícia e ladrão
Quando não sou taxado de "do contra" por me colocar contra o que acho errado
Quando não faço filas de meninos e meninas
Quando nem ao menos os obrigo a andar em filas
Quando acho no mínimo esquisito ser professor de escola pública e colocar os filhos em escolas particulares

Se colocar contra um projeto de educação e se sentir como se falasse à um precipício que não possui nem o eco como resposta é solitário pra cacete, mesmo rodeado de 25 crianças em uma sala superlotada...