segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Se o céu fosse a terra

Se o céu fosse a terra
todas as nuvens, local de descanso eterno dos anjos,
estariam nas mãos de alguns poucos urubus,
que cobrariam que os anjos tocassem suas harmoniosas harpas
para poderem permanecer nas nuvens.

Se o céu fosse a terra
os grandes conglomerados de nuvens, comandadas pelos urubus,
exterminariam as minúsculas nuvenzinhas rebeldes
que surgiriam após as tempestades,
comandadas por anjos que se recusavam a tocar suas harpas.

Se o céu fosse a terra
a água, derramada pelas nuvens,
seria de posse restrita do urubus
e estes urubus que determinariam
que apenas os anjos que cumprissem a cota de músicas tocadas
poderiam usufruir dela.

Se o céu fosse a terra
alguns anjos, seriam beneficiados rotineiramente com harpas novas
e estes teriam mais direitos do que os que tivessem harpas ultrapassadas
bem como os que tivessem suas harpas roubadas pelos urubus,
colocando assim, uns anjos contra os outros.

Se o céu fosse a terra
os urubus cobrariam músicas
dos anjos que tivessem suas harpas roubadas pelos próprios urubus
e estes diriam
que os anjos não tocam músicas
pois são preguiçosos e vagabundos.

Se o céu fosse a terra
a capacidade de inculcação dos urubus seria tanta
que eles fariam com que os anjos desejassem tornar-se urubus.
E alguns anjos passariam até a comer carniça para se parecer com eles.

Se o céu fosse a terra
alguns anjos sumiriam inexplicavelmente
e coincidentemente seriam os anjos que tocassem músicas que não seriam do agrado dos urubus.

Se o céu fosse a terra
para amenizar os conflitos entre urubus e anjos
seria criado um comitê de justiça celestial
onde seriam dados os vereditos sobre todas desavenças.
As causas ganhas do urubus seriam certas, tendo em vista que
eles escolheriam os santos que seriam membros deste comitê.

Se o céu fosse a terra
ele seria tomado pelo latifúndio e pela pecuária
e acabaria em algodão doce transgênico
e pastos de animais imaginários.





terça-feira, 7 de outubro de 2014

A árvore e o facebook

Existe uma velha questão filosófica que pergunta: se uma árvore cai no meio da floresta, mas ninguém viu nem ouviu, realmente essa árvore existiu?

O tempo passa, e a questão evoluiu.

Agora uma questão que anda permeando o facebook: fui a exposição do castelo rátimbum no MIS, mas não publiquei. Foto com o Godofredo eu não tirei. Nem com o porteiro nem com ninguém. Nem postei que por lá andei.
Será que fui mesmo a exposição?

Fui a um restaurante japonês e não tirei foto do meu temaki.
Comi batata doce com filé de frango e não avisei todos meus "amigos".
Fui a academia e não divulguei.
Fiz minhas unhas e não mostrei.
Será que fiz tudo isso ou não?

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Teoricamente pra mim você fez,
já que através da sua publicação eu tomei conhecimento
e como creio em você, acreditei ser verdade.
Mas, já que não tens "provas" concretas de que fostes a estes lugares
eu te pergunto:
Não seriam essas passagens frutos de falsas memórias?

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Falsas memórias eu não possuo,
talvez desejos escondidos onde não há claridade
Se analisadas tais pessoas, eu presumo
mostrarão o seu desejo de parecer celebridade

Se a esses feitos tivesse eu comparecido
sendo meu amigo você saberia, sem alarde
e não estaria compactuando comigo
a este mito da caverna que a todos invade

domingo, 5 de outubro de 2014

Eleições 2014



Que a derrota no governo de São Paulo e a aproximação do Aécio na disputa presidencial sirva de lição para o PT. Apesar de fazer sempre o jogo do empresariado, o PT é como o genro que é apenas suportado na casa dos sogros, mas ao primeiro sinal de conflito é escrachado. Faz o jogo das elites mas sempre que estas podem o metralham, através da grande mídia.

Com a derrota estadual, e a parcial vitória que necessita de muita cautela no governo federal, tomara que o partido e sua coligação repensem suas atuações, e que deixem de repetir como um mantra que a esquerda anti-capitalista é "a esquerda que toda direita gosta" e passem a levar em consideração suas críticas. A esquerda que a direita gosta, é aquela que se alia a ela, que se caracteriza como social-democrata, abandonando lutas construídas historicamente pela classe trabalhadora em pró da governabilidade. A linha entre a governabilidade e a contradição é tênue.


O PT, que serve ao Estado burguês-latifundiário, se aliando aos setores mais conservadores da sociedade, trouxe sim avanços pontuais e posicionamentos que o governo tucano não conseguiu, e sequer pretendia. Se com o governo petista a vida dos brasileiros melhorou da porta de casa para dentro, da porta para fora as dificuldades são as mesmas, como diz certa música: "o pé que usa chinelo hoje tem tênis pra calçar, mas ainda leva o corpo pro mesmo lugar".

Embora o PT com suas alianças, no contexto atual, não contemple meus posicionamentos e aflições, coloca-lo no mesmo balaio do PSDB é no mínimo leviano. Se com a reeleição de Dilma, o Brasil não verá nenhuma mudança significativa das políticas já praticadas pelos 12 anos de governo, elegendo Aécio sem dúvida é dar inúmeros passos para trás.

E como é necessário compreender que política eleitoral não se resume a estudo de teorias políticas, não votei nela no primeiro turno mas o que resta é votar na Deelma no segundo...

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Oprimidos e opressores.

   Homens, brancos, heterossexuais de classe média e alta. Tenho uma coisa importante para dizer a vocês: vocês não são protagonistas das mudanças sociais. É isso mesmo, vocês não são. Podem até colaborar, e a meu ver, é o que devem fazer, colaborar, mas não protagonizarão. Talvez possamos (pois eu sou um dos que pertencem às classes já citadas) ser agentes contribuintes, esclarecermos aos nossos iguais nossos privilégios, a distância que nos separa dos desprivilegiados, mulheres, negros e indígenas, homossexuais e pobres. Nosso papel está em uma possível conscientização de que nossa vida possui mais facilidades que a vida dos demais. Eu nunca fiquei com medo de ser abusado sexualmente na rua a noite. Eu nunca levei uma lampadada na cabeça andando na Av. Paulista. Eu nunca entrei em uma loja e o segurança ficou de olho em mim por causa da cor da minha pele. Eu nunca tive que ir à casa de uma família cuidar dos filhos de outro enquanto deixava meus filhos sozinhos em casa. Fui enfrentar minha primeira consulta médica na saúde pública com 17 anos. Sou um privilegiado e por isso o papel que me resta perante os meus iguais, é de buscar conscientizá-los de que “privilégio come direito” (Eduardo Marinho). Salvo exceções, os que abdicam de sua origem social e acabam somando à luta, de diversas maneiras, as lutas populares, mas esses são minorias.

   Por outro lado, mulheres, negros, homossexuais e pobres. Sem vocês não haverá mudança social alguma! Alguns privilegiados conscientes, podem talvez preparar um terreno para tornar menos árdua a luta por uma sociedade igualitária, mas apenas vocês podem reverter a situação. Nenhum homem sabe melhor do que qualquer mulher quanto dói o machismo, nenhum branco sabe tão bem quanto um preto o quanto fere o racismo, nenhum heterossexual sabe tão bem quanto um homossexual como é ser discriminado. Sem a organização dos que sentem na pele a opressão, sem a consciência de que ser violentado não é natural, nada mudará. É imprescindível que se organizem, que estudem como se reproduz a opressão e que possibilitem meios de derrubá-la. Seus direitos, que são legítimos, devem se concretizar tomados de assalto! Apenas lutando se fazem valer direitos, diretos esse que não é nenhum papel que os define, e sim a consciência de que ninguém é melhor do que ninguém. Só os oprimidos podem se libertar da opressão, assim como só os oprimidos podem libertar os opressores de sua posição. O papel dos oprimidos na luta é primordial.

sábado, 26 de julho de 2014

Contradições

     Alaor tinha uma vontade imensurável de mudar o mundo. Alaor fazia parte de um projeto social que chamava “Uma casa para minha nação”. Alaor se sujeitava a ficar dias sem tomar banho, acordando cedo, dormindo tarde, trabalhando duro, para ajudar famílias a construírem suas próprias casas. Incontestavelmente uma nobre atitude. Alaor se dedicava ao projeto social em suas férias e em finais de semana, e o fazia com um grande sorriso no rosto. Na sua rotina comum, Alaor trabalhava em uma empresa na área das relações públicas, prestando serviço para outras empresas. Dentro dessas outras empresas estava uma que produzia matéria-prima para a indústria bélica. Alaor tinha uma vontade imensurável de mudar o mundo. Alaor fazia parte de um projeto social. Alaor fazia parte da lógica da produção de guerras. 


     Dona Adelaide era uma mulher religiosa, freqüentava a igreja do bairro em que morava. Fazia parte do projeto que doava roupas e cobertores aos desabrigados durante o inverno para que pudessem se aquecer. Dona Adelaide via na televisão que pessoas morriam nas ruas por causa das baixas temperaturas e sabia que poderia fazer algo. Não gostaria de sofrer assim, logo, não desejava isso para os outros, por isso ajudava como podia. Sua casa localizava-se em uma área nobre da cidade e sua renda a proporcionava viver em um nível de qualidade de vida acima da média da população. Dona Adelaide também era dona de um imóvel no centro da cidade, que estava desocupado. Dona Adelaide o deixava ocioso aguardando que a especulação imobiliária o valorizasse para posteriormente vende-lo e poder acumular mais dinheiro. Dona Adelaide ajudava os desabrigados fornecendo roupas e cobertores. Dona Adelaide tinha uma casa vazia que esperava valorizar.


     Ana Maria ficou sabendo que suas amigas estavam cortando os cabelos para que fossem feitas perucas a serem doadas às pessoas com câncer. Ana Maria se emocionou com aquela atitude e resolveu fazer igual. Não fez como sua amiga Mariana que cortou quatro míseros dedos, Ana Maria cortou o cabelo bem curto, como num trote de faculdade. Estava careca por uma boa causa, sabia que estava ajudando o próximo, traria conforto a pessoas que estivessem passando por tempos difíceis. Ana Maria trabalhava de secretária em uma gigante empresa do ramo do tabaco, chamada “Bomboro”. Ela fechava a logística das encomendas para onde seriam enviadas as caixas de cigarro. Ana Maria, ao cortar seu cabelo, sabia que tinha ajudado a alegrar uma pessoa com câncer. Ana Maria se solidarizava com elas. Ana Maria ajudava a vender cigarros.


     Tainá é vegetariana e milita contra o consumo de animais. Acredita que os nutrientes que precisamos para viver com qualidade podem vir de outras fontes. Tainá dizia que a maneira como os animais são confinados e abatidos é muito cruel. Tainá usa uma camiseta escrita “se você ama uns, porque come outros?”. Tainá faz suas compras no mercadinho da esquina e sabe que os produtos de lá são oriundos da agricultura familiar. Tainá trabalha em uma agência publicitária. Seu último trabalho, que a fez ser promovida, foi uma propaganda para uma empresa do agronegócio chamada “Mãosanta”. Tainá é uma profissional bem sucedida! Tainá milita pelo vegetarianismo e pela causa animal. Tainá faz propaganda para o agronegócio.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Aderbaldo

   Aderbaldo morava sozinho. Não tinha família. Não tinha cachorros nem gatos. Achava estupidez as pessoas carentes que chamavam seus animais de estimação de "filho". Nunca tinha ouvido notícias de um poodle que saiu de algum orifício humano.

   Apesar de gostar de passarinhos, vê-los presos não agradava Aderbaldo. Davam a sensação de prisão, sufocamento. Talvez pudesse ter um papagaio que ficaria solto pela casa, mas papagaios falavam demais e não sabiam o que falavam. Pra falar o que não sabem já bastavam as pessoas.

   Aderbaldo ia a bares e sentava-se sozinho. Tirava as demais cadeiras da mesa para que ninguém ousasse sentar ao seu lado. Nunca se sentava no balcão. Não queria interagir, apenas observar. As vezes alguns bêbados buscavam socializar com Aderbaldo, mas Aderbaldo fingia ser surdo. Sabia que não era uma atitude nobre, mas a preguiça do outro era maior do que o peso na consciência.

   Aderbaldo quando passava pelo caixa do supermercado, antes de esperar a atendente perguntar se queria adquirir o cartão fidelidade, concorrer ao vale comprar de 500 reais ou se queria CPF na nota, já se antecipava e dizia: "não, não e não, obrigado".

   Apesar de sempre sozinho, Aderbaldo não se sentia só. Mas como ser humano que era, as vezes fraquejava e tinha vontade de interagir com os outros. Nesses casos, Aderbaldo não dava 'boa noite' para o William Bonner, ele peidava perto dos outros. Era reprimido pelo olhar, e sorria.

   Aderbaldo não tinha celular, não fazia questão que soubessem onde ele estava. Ele estava onde gostaria de estar. Se não estava na esquina, era porque não gostaria de estar na esquina. Se não estava na quitanda, era porque não gostaria de estar na quitanda. Se estava na praça, era porque queria estar lá. A não ser quando tinha que ir ao banco. Quando estava lá, não queria estar. Não suportava a formalidade daquela gente que agia como robôs.

   Aderbaldo não gostava de ioga. Ele não conseguia fazer nenhuma daquelas posições malucas e achava que as pessoas escondiam suas mesquinhices através de uma cortina de exoterismo. Aderbaldo preferia ir ao teatro. Era melhor ver gente de mentira dizendo verdades do que gente de verdade dizendo mentiras.

domingo, 11 de maio de 2014

de Francisco a Chico


    Francisco não gostava de seu nome. Pensava que tinha nome de gente velha. Aliás, não só pensava, mas de fato o tinha! Que criança se chama Francisco, Gertrudes, Teodorico? E o apelido era pior. Ele odiava ser chamado de Chico. Ele não era caipira como Chico Bento. Francisco poderia ser nome de um contador de causo, de um tocador de viola caipira que fuma cigarros de palha, ou de um idoso que fica em sua cadeira de balanço na frente de casa com um cachorrinho lhe fazendo companhia. Porque não se chamar Lucas, Felipe, Rafael, como todos os outros meninos chamavam? Francisco não era nome de meninos de oito anos.

    Francisco não só tinha o nome de velho, como ainda tinha um sobrenome que agradava aos praticantes de bullyng de sua escola (bullying ainda não era bullying, era só um calejamento pra vida). Seu sobrenome era Pinto. Francisco Pinto frequentemente ouvia o comentário: “HAAAA ele tem pinto no nome!”. Até que um dia se cansou da piada e riscou a etiqueta do estojo com seu sobrenome polêmico. Ouviu de um colega: “HAAAAA ele não tem mais pinto!”. Todos riram. Engraçadíssimo!

    Francisco entrou na puberdade. Adorava rock! Era camisa do Guns N’ Roses pra cá, Nirvana pra lá, Ramones pra cima, Doors pra baixo, e de baixo do tapete um pouco de Negritude Jr. Nas bandas de rock, só nomes como John, Axl, Jim, Jannys, Joey, Paul, nada de Francisco. Durante as freqüentes viagens de finais de semana, Francisco e sua família ouviam música nacional. Mas Francisco não conhecia aqueles cantores e bandas. Não ouvia com muito gosto. Não o incomodava, mas também não se importava. Músicas esquisitas que diziam: “catolé do rocha praça de guerra, catolé do rocha onde o homem bode berra!”, existe homem bode? Gostava mesmo era das guitarras elétricas.

    Francisco pensava que Sepultura era MPB. Sendo a “música popular brasileira” toda música que a população brasileira ouvisse, nada mais lógico do que Sepultura se enquadrar nessa classificação. É óbvio. Só não entende quem não quer.

    Alguns anos mais tarde, Francisco descobriu que não havia problema algum em ouvir ritmos que são postos como antagônicos, como o pagode e o rock. Descobriu que quem os coloca como opostos são uns idiotas! Descobriu que poderia gostar de funk, pagode, samba e rock ao mesmo tempo! A vida é mesmo bela! Afinal, não existe o samba-rock? "Acabo de inventar o pago-rock!", pensou. Francisco descobriu que podia ouvir Pixote de manhã, Beatles de tarde, Queen de noite, e caso a insônia o pegasse desprevenido, poderia passar o tempo curtindo as músicas do Raça Negra (Luissss Carrlossss).

    Posteriormente Francisco passou a ouvir com freqüência as mesmas músicas que ouvia com sua família nas viagens de finais de semana. Francisco descobriu o nome daquele estilo musical nacional. Francisco tinha criado gosto pela MPB. Ouvia aquelas canções melosas, rebeldes, dramáticas, fossem simples ou obras-primas, sentia prazer com suas letras e melodias.

    Francisco descobriu que um dos cantores das músicas estranhas que ouvia em sua infância era Chico César. Um cara de cabelo engraçado que cantava belíssimas músicas que falavam sobre o nordeste, um cara que exigiu respeito dos brancos em relação ao desrespeito aos seus cabelos afro. Conheceu a banda Nação Zumbi, e descobriu que suas famosas músicas são de parcerias com o cantor Chico Science, um dos precursores do manguebeat, movimento que denunciava a especulação imobiliária pernambucana que destruiu os mangues da região. Através das aulas de história, sobre a ditadura militar, conheceu Chico Buarque e suas artimanhas para se livrar da censura e poder divulgar suas músicas que traziam à tona a realidade da época. Tortura, exílio e violência de Estado eram freqüentes em suas letras. E tirando essas, sobram diversas outras músicas românticas e tão bonitas e ricas quanto às dos outros Chicos.

    Aquele que quando criança odiava ser chamado de Chico, hoje, já crescido, não se envergonha de seu nome. Fica feliz por ter um nome diferente, que não seja comum como Lucas, Felipe ou Rafael. Francisco se orgulha de ter os mesmos nomes que Chico César, Chico Science e Chico Buarque. Hoje Francisco se apresenta a todos como Chico.